setembro 22, 2026

Bússola: guia de Pyxis, a agulha náutica ao lado do antigo navio Argo

Carta estelar da Bússola como aparece do Brasil, olhando para o sul: o contorno apagado de Pyxis entre a Popa e a Máquina Pneumática, com o aglomerado aberto NGC 2627 e a nebulosa planetária NGC 2818 marcados em verde

A Bússola é um bom exemplo de constelação que existe mais por geografia do que por brilho: um pedacinho discreto de céu, entre a Popa e a Máquina Pneumática, batizado com o nome do instrumento que os navegadores usavam para não se perder. Ela não tem quase nenhuma estrela vistosa — mas guarda um dos objetos mais estranhos e bem documentados do céu austral, a estrela T Pyxidis, que já explodiu (sem se destruir) pelo menos cinco vezes desde 1890.

Uma agulha de bússola cravada no meio do antigo Argo

A Bússola (Pyxis, abreviatura Pyx) é uma pequena constelação austral, com cerca de 221 graus quadrados, encaixada entre a cabeça de Hidra ao norte, Popa a oeste, Vela ao sul e Máquina Pneumática a leste (Mourão, verbete Pyxis, p. 656). É "difícil de localizar, por possuir somente algumas estrelas muito fracas" (Mourão, p. 656) — mesmo diagnóstico do Kambič, que a chama de "pequena e nada notável" (small and undistinguished), junto com a vizinha Máquina Pneumática (Kambič, p. 182).

A constelação foi criada por Lacaille no século XVIII para representar uma bússola marítima, a agulha magnética que orientava os navegadores (Mourão, p. 656; Philip's, verbete Pyxis). Não é por acaso que ela fica bem ao lado da Popa e da Vela: as três, mais a Quilha (Carina, tema de outro guia), formam os pedaços em que Lacaille dividiu o antigo Argo Navis, a enorme constelação grega do navio dos Argonautas — Pyxis tomou o lugar de um mastro que os gregos já desenhavam ali, apagado desde então (Moore, Observer's Year, p. 356).

Quando e como achar

Melhor época. Com centro perto de RA 8h53m e Dec -27,6°, a Bússola culmina por volta das 21h locais em fins de fevereiro/início de março. A boa temporada de observação vai de dezembro a abril, junto com a Popa e a Vela.

Para onde olhar. Como a Dec central fica bem abaixo de -23°, a Bússola culmina ao sul do zênite em todo o Brasil: a carta abaixo mostra o céu olhando para o sul, com o norte para cima e o leste à esquerda.

Cidade Altura de Alfa Pyxidis (a mais brilhante)
Boa Vista (RR) 54°
Manaus (AM) 60°
Recife (PE) 65°
Brasília (DF) 72°
Rio de Janeiro (RJ) 79°
São Paulo (SP) 80°
Porto Alegre (RS) 87°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com a declinação do catálogo do site (-33,2°) e a latitude de cada cidade; valores arredondados. A Bússola sobe bem alta em qualquer ponto do Brasil.

Carta estelar da Bússola como aparece do Brasil, olhando para o sul: o contorno apagado de Pyxis entre a Popa e a Máquina Pneumática, com o aglomerado aberto NGC 2627 e a nebulosa planetária NGC 2818 marcados em verde
Carta estelar da Bússola como ela aparece do Brasil ao olhar para o sul: o norte fica em cima e o leste à esquerda. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. A linha laranja tracejada larga é o limite oficial da constelação. Em verde-claro, os objetos de céu profundo citados neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo. Não há estrela batizada para servir de referência. O caminho mais fácil é partir de Naos (Zeta Puppis), a supergigante azul bem brilhante da Popa, a oeste, ou da cauda de Hidra, ao norte, e procurar o alinhamento discreto de Alfa, Beta e Gama Pyxidis, as três únicas estrelas da constelação acima da 4ª magnitude (Kambič, p. 182).

As estrelas da Bússola

Estrela Brilho visual (mag.) Tipo espectral Distância aproximada
Alfa Pyxidis 3,68 B1,5 III cerca de 845 anos-luz
Beta Pyxidis 3,97 G5 (gigante) cerca de 390 anos-luz
Gama Pyxidis 4,02 K4 (gigante) cerca de 210 anos-luz

*Magnitudes, tipos espectrais e distâncias do Philip's Astronomy Encyclopedia (verbete Pyxis) e do Data Book of Astronomy (tabela de Pyxis, p. 475); confrontar com o SIMBAD antes de publicar.*

Alfa Pyxidis, a mais brilhante, é uma estrela azul-branca quente (tipo B1,5), bem mais luminosa que o Sol e a cerca de 845 anos-luz (Philip's, verbete Pyxis). O Data Book of Astronomy registra para ela o nome antigo "Al Sumut", que não encontramos confirmado em outras fontes nem nas listas atuais de nomes próprios da IAU — provavelmente uma variante histórica de catálogos árabes, sem status oficial hoje. Beta e Gama Pyxidis são gigantes mais frias e mais próximas, sem destaque particular nos livros consultados.

T Pyxidis, a estrela mais famosa da constelação, é uma nova recorrente: um sistema binário — uma anã branca puxando gás de uma companheira — que já foi flagrado em explosão pelo menos cinco vezes desde que passou a ser observado: 1890, 1902, 1920, 1944 e 1966, sempre subindo da magnitude 14 (no mínimo) para cerca de 6,3 a 7 no máximo (Data Book of Astronomy, p. 475). É um dos poucos sistemas desse tipo estudados de perto o bastante para os astrônomos discutirem se, ao acumular massa suficiente ao longo de sucessivos surtos, a anã branca de T Pyxidis poderia um dia ultrapassar o limite de Chandrasekhar e explodir de vez, como supernova do tipo Ia — um cenário debatido, não confirmado.

Objetos de céu profundo

NGC 2627, o aglomerado aberto

O NGC 2627 fica a menos de 1° a sudoeste de Zeta Pyxidis, magnitude 4,9. Tem magnitude 8,4 e cerca de 11 minutos de arco de diâmetro; em telescópio de 20 cm, mostra cerca de três dezenas de estrelas espalhadas numa faixa larga, de leste a oeste, com um brilho de fundo que sugere mais estrelas não resolvidas (Bakich, objeto nº 88).

NGC 2818, o aglomerado com uma nebulosa planetária dentro

O NGC 2818 é um alvo duplo e raro: um aglomerado aberto solto, de cerca de duas dezenas de estrelas (a maioria abaixo da 12ª magnitude), com uma nebulosa planetária, NGC 2818A, encravada bem no meio dele (Bakich, objeto nº 109; Data Book of Astronomy, p. 475). A nebulosa tem forma de "haltere" (parecida com a Nebulosa Manual, M 27, em miniatura); um telescópio de 20 cm já separa os dois lóbulos, mas só instrumentos de 50 cm ou mais revelam mais detalhes (Bakich). É um lembrete de que nem todo objeto "dentro" de um aglomerado pertence fisicamente a ele — é preciso cuidado ao interpretar esse tipo de coincidência de posição no céu.

NGC 2613, a galáxia que se esconde atrás da Via Láctea

A galáxia espiral NGC 2613, tipo Sb, tem magnitude 10,4 a 10,5 e é vista quase de perfil, alongada cerca de quatro vezes mais no comprimento que na largura. Faz parte de um aglomerado de galáxias batizado de "Concentração de Puppis", com densidade comparável à do Aglomerado de Virgem — mas a maior parte dele fica escondida atrás da poeira e das estrelas da nossa própria Via Láctea (Bakich, objeto nº 86).

Mitologia e história

Pyxis não tem mitologia própria: como a maioria das constelações australes modernas, nasceu de um critério instrumental. Foi criada por Lacaille no século XVIII, tomando o lugar do mastro que os desenhos antigos do Argo Navis colocavam naquele trecho do céu (Moore, Observer's Year, p. 356; Mourão, p. 656). É a menor e a mais fraca das quatro partes em que o antigo navio grego foi dividido — Carina, a quilha; Puppis, a popa; Vela, as velas; e a própria Pyxis, cujo nome moderno de "bússola" nem sequer faz parte do desenho original do navio, apenas ocupa um espaço que sobrou perto dele.

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu O alinhamento fraco de Alfa, Beta e Gama Pyxidis, em céu bem escuro.
Binóculo (10×50) NGC 2627 como uma manchinha nebulosa; um bom teste de céu escuro, porque a Bússola é pobre em estrelas.
Telescópio pequeno a médio (15 a 20 cm) NGC 2627 resolvido em dezenas de estrelas; os dois lóbulos de NGC 2818A dentro do aglomerado NGC 2818; a galáxia NGC 2613 como uma sombra alongada.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre dezembro e abril, em céu escuro — a Bússola é apagada o bastante para sumir com qualquer luz parasita.
  • Use Naos (Zeta Puppis), bem mais brilhante, como ponto de partida para chegar à região.
  • Depois da Bússola, a Via Láctea densa da Popa e da Vela, logo ao lado, rende uma noite inteira de varredura com binóculo.

Referências

  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Pyxis", p. 656.
  • MOORE, Patrick (ed.). Astronomy Encyclopedia (Philip's). Londres: Philip's. Verbete "Pyxis", p. 325 (paginação interpolada).
  • MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press. Tabela de Pyxis (estrelas, variáveis, duplas, aglomerados, nebulosa planetária e galáxia), p. 475.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. Londres: Springer. Noite de 26 de dezembro (Argo Navis, Falsa Cruz e Pyxis), p. 356.
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars. New York: Springer, 2010. Antlia e Pyxis, p. 182.
  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die. New York: Springer, 2010. Objeto nº 86 (NGC 2613), nº 88 (NGC 2627) e nº 109 (NGC 2818), p. 40-51 (paginação estimada).
  • Catálogo de dados de céu profundo e estelares do site Astronomia no Telhado (HYG v4.1, CC BY-SA 4.0), consultado em 21 set. 2026.